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SOBRE O CÓDICE

Mundo Tardio convida o leitor a atravessar um universo em que a ruína não é o fim da grandeza, mas o limiar da compreensão. Aqui, o humano já não ocupa apenas o centro de um mundo esgotado, ele é posto diante de outras realidades. Formas de existência que excedem a medida comum, de presenças cuja vastidão pode ser intuída, contemplada e, em raros momentos, suportada em pensamento. A obra oferece a experiência de um cenário em que jogar, ler e interpretar significam mover-se à beira do desconhecido, reconhecer o peso do que é maior que nós e ainda assim avançar com lucidez. É uma obra para quem deseja mais do que aventura, para quem deseja presença, vertigem, profundidade e a sensação de contemplar algo antigo, incomensurável  e vivo.

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REFERÊNCIAS

O que sustenta a obra Mundo Tardio não nasceu da justaposição de referências. Advém de uma tentativa deliberada de fazer certas linhagens do pensamento dialogarem, até que delas emergisse uma visão de mundo coerente, grave e viva. Friedrich Nietzsche oferece a ruptura inicial; sobretudo em "O Nascimento da Tragédia", quando a tensão entre apolíneo e dionisíaco revela que forma e abismo não se anulam, fecundam, a obra encontra um de seus impulsos mais decisivos, na "Genealogia da Moral", ao expor o ressentimento, a inversão de valores e a reatividade, encontra a crítica da herança que enfraquece, e em "Assim Falou Zaratustra", quando o homem é pensado como travessia, ponte e superação, encontra a exigência de ir além da forma que permite existir. Já, Immanuel Kant impõe o limite. Na "Crítica da Razão Pura", ao distinguir o campo dos fenômenos daquilo que excede a experiência possível, recorda que há, no real, um excesso que resiste à posse plena do conhecimento. E Martin Heidegger, desloca a questão para os modos de comparecimento, em "Ser e Tempo", ao pensar o ser-no-mundo e os regimes pelos quais os entes se mostram, oferece a base para compreender que o mundo não é apenas aquilo que se observa, mas aquilo em que o interior já se está lançado. Rudolf Otto restitui o peso do encontro, em "O Sagrado", ao nomear o numinoso como mysterium tremendum et fascinans, devolve à experiência o tremor, o fascínio e a gravidade daquilo que se impõe como inteiramente outro.

A partir daí, a obra encontra, em Edmund Husserl e Maurice Merleau-Ponty, o caminho para pensar não apenas o que aparece, mas como algo se manifesta e se encarna diante de um corpo situado no mundo. Husserl, sobretudo em "Ideias para uma Fenomenologia Pura" e para uma "Filosofia Fenomenológica", com apoio das "Investigações Lógicas", refina a estrutura da manifestação, da consciência e da doação de sentido, com ele o aparecer deixa de ser apenas evidência e passa a ser compreendido como intencionalidade e constituição. Merleau-Ponty, em "Fenomenologia da Percepção", encarna esse movimento. A percepção já não é simples operação mental, mas experiência corporal, situada e vivida. Gilbert Simondon acrescenta um ponto decisivo a essa arquitetura, em "L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information", permite pensar o ser não como essência fixa ou forma acabada, mas como individuação em curso, tensão, fase e reconfiguração. Gilles Deleuze, em "Diferença e Repetição", amplia esse horizonte ao pensar a diferença e o devir não como acidentes secundários do mesmo, mas como forças positivas de variação real, capazes de deslocar o humano sob novas condições de realidade. Bertrand Russell, por fim, em "Os Problemas da Filosofia", atua como disciplina de arquitetura. O que permite, clareza conceitual, a distinção entre níveis de linguagem e a contenção da imprecisão impedem que a densidade se perca em obscuridade.

 

É dessa convergência que nasce a espinha dorsal do RPG Mundo Tardio. Não como exibição erudita, mas como fundamento. Nesta fração de realidade, humano, matéria, presença, desafeição, ruína e transformação não foram concebidos como temas isolados, foram reunidos como partes de uma mesma estrutura de compreensão, na qual o cerne filosófico não aparece como simples ornamento, mas como nervuras intelectuais de um mesmo corpo. O resultado é um universo em que pensar e atravessar o mundo quase se confundem, compreender já não é recolher conceitos mortos, mas suportar lucidamente a pressão daquilo que se manifesta, resiste, fere e transforma.

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